segunda-feira, novembro 12

UM CADAVER NA COZINHA - CAPITULO 30


O HOMEM COM CHIFRES

A fotografia deveria ter sido colorida quando tirada, mas estava tão envelhecida que parecia preto e branca. Durval aproximou o álbum do rosto. De fato, indiscutivelmente, o homem em pé em primeiro plano era Botelho. Estava mais jovem, devia ter menos de 40 anos, mas era o próprio. Usava um jaleco branco com gola padre fechado até o pescoço, o rosto sério e compenetrado. Ao seu redor três homens com fardas do exército e outros dois usando jalecos. O lugar parecia ser um laboratório. As paredes eram cobertas com painéis de instrumentos eletrônicos e no centro da foto havia uma mesa que parecia ser de aço inoxidável. Deitado nela, um homem coberto com um lençol até a altura do peito. Com uma das mãos, Botelho segurava a cabeça dele por trás, levantada. Os olhos do homem estavam fechados e de sua testa projetavam-se dois chifres cada um da grossura de um punho fechado. Como os de um carneiro, eram recurvados e enrolavam-se em volta da cabeça, como dois grandes fones de ouvido feitos de osso. Eram enrugados e iam afinando até tornarem-se tão finos quanto a ponta de um lápis.
                Durval tossiu.
                Não conseguia tirar os olhos da imagem. A boca entreaberta e a estranha sensação de que o mundo não era bem como ele imaginou. Com 76 anos de idade achou que já tinha visto de tudo nessa terra. Achou que até era um chegado das coisas do mundo. Um antigo amigo que conhecia todos os cômodos da casa do anfitrião. Mas não. Havia armários, quartos, porões, que ele nem imaginava que estavam lá. Sim, tinha visto na noite anterior fotos na internet de pessoas com “chifres”. Mas aqueles precisavam ficar entre aspas, pois não eram de verdade. Doenças ortopédicas, crescimento anormal de tecido ósseo que acabava rompendo a pele e saindo da cabeça ou mesmo de outras partes do corpo, trágico, sim para o portador da mazela, mas apenas isso. No entanto, aquilo que estava estampado diante dele na fotografia era outra coisa. Ia muito além de uma deformidade óssea.
                Durval piscou e tentou engolir a saliva, mas a boca estava seca. Sentou-se no sofá ao lado do gato.
                Imaginou porque Botelho, que conhecia há mais de trinta anos, nunca lhe contara nada sobre uma coisa assim. Achou que não tinham segredos um com o outro. Ainda mais Botelho que adorava contar histórias inusitadas. Como quando contou em detalhes o perrengue que passou na Argentina quando fora voluntário para ajudar as vítimas do Tornado San Justo. A equipe de voluntários fora pega por um segundo tornado durante a tentativa de resgate das vítimas e, após um desmoronamento do prédio em que estavam, tiveram que ser resgatados por uma segunda equipe de voluntários.
               — Te disse que esse Botelho não era boa gente — Durval ouviu ao longe.
                Olhou para Heitor que já estava guardando o álbum de volta na gaveta da escrivaninha da sala.
               — Como você conseguiu essa fotografia?
                Heitor sorriu e Durval entendeu que ia ouvir uma história ainda mais bizarra do que a fotografia em si.



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Um Cadáver na Cozinha é um folhetim escrito por José Gaspar e publicado na coluna "Histórias de Mistério" do jornal The Brazilians em Nova York.

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terça-feira, julho 31

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 29


UM PÁSSARO INCONVENIENTE

Durval acompanhou Heitor do portão até a entrada da casa. O quintal era obsessivamente arrumado. Cada pedra que formava o caminho até a casa parecia ter sido milimetricamente posicionada. As folhas dos arbustos baixos podadas com precisão pareciam formar capacetes de soldados em volta dos troncos, e os vários medronheiros estavam dispostos como um pelotão pronto para a batalha. A parte de baixo dos troncos era pintada de branco, e a grama do quintal, muito bem aparada, ia só até uns trinta centímetros do pé da planta. Um círculo perfeito de terra preta era separado da grama por pequenas pedras, tão limpas que Durval imaginou Heitor esfregando-as com uma escova de dentes. O muro atrás dos arbustos era coberto por heras de folhagem escura.
               Ao subir o degrau da varanda Durval quase caiu com bengala e tudo ao se assustar com o que pensou ser um tiro de espingarda. Achou que iria ao chão, alvejado de bala, mas Heitor foi rápido e segurou-o pela blusa de lã que esticou e quase rasgou.
              — É só a Dorotéia — disse Heitor.
               A cacatua branca estava empoleirada na varanda bem acima da cabeça de Durval. Parecendo um labirinto, uma série de poleiros e escadinhas de madeira pintadas de vermelho e amarelo ladeava toda a volta do teto. O pássaro parecia não ter gostado de Durval. Balançava a cabeça com as penas eriçadas e fazia um barulho de gargarejo irritante e estridente.
               Heitor pegou um borrifador e jogou água no pássaro.
              — No calor ela gosta — explicou.
               A cacatua abriu as asas e deleitou-se com os borrifos.
              — Tem vitamina diluída na água para as penas.
               Heitor fez carinho na barriga do pássaro, mas ele tentou bicar sua mão.
              — Não gosta de estranhos. Fica arisca.
               Durval deu uma risadinha sem jeito. Sua vontade era dar um safanão no pássaro antipático. Mas precisava manter a cordialidade com seu anfitrião se queria ver a tal fotografia na qual Botelho aparece ao lado de um homem com chifres.
               Heitor abriu a porta da casa e entrou. Durval ainda deu uma última olhadela para a cacatua que olhou de volta com a cabeça de lado, usando apenas um olho.
               Foi só entrar na casa e avistou outro bicho branco. Refestelada no braço do sofá, a gata que vivia entrando em sua casa. Soltou um miado assim que os dois entraram.
              — Essa gata é sua? — Perguntou Durval.
              — Não é gata. É macho. É da Mel. Ela tem oito.
              — Oito gatos?
               Durval aproximou-se do bichano tentando decidir se era o mesmo que havia visto no dia em que ele e Dolores encontraram o cadáver na cozinha de casa. Sua esposa sempre se referia ao animal como gata. Mas bem poderia ser um gato.
               Heitor abriu uma gaveta da pequena escrivaninha e tirou um álbum de fotografias com a capa preta.
              — Senta.
               Durval obedeceu e sentou-se ao lado do gato.
               Heitor ficou em pé na sua frente virando as páginas do álbum. Na capa se lia em letras douradas: “Academia Militar de Infantaria do Terceiro Regimento de Engenharia de Combate".
              — Aí está! — Estendeu-lhe o álbum aberto.



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sábado, março 24

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 28


NADA DE FOFOCA

Durval olhou para o relógio uma última vez antes de tocar a campainha da casa número 72 da Rua Bela Vista em Santa Tereza. Nove horas em ponto. Não queria parecer inconveniente chamando o vizinho Heitor antes dele estar minimamente acordado pela manhã. Sabia que o sujeito não era de dormir até tarde, mesmo aposentado costumava acordar cedo para jogar bocha no bar do Adelino. Sempre que Durval passava na frente do bar a caminho da banca de jornais, via Heitor e a trupe de aposentados galhofando dentro das canchas de madeira encerada ou então discutindo ruidosamente por causa da distância entre as bolas que ia conferir um ponto a mais ou a menos para uma das equipes.
              Alguém, dentro da casa, espiou pela janela por uma fresta na cortina. Durval acenou erguendo o braço no ar. A fresta fechou.
              Depois de algum tempo a porta da casa abriu e Heitor saiu. Grunhiu alguma coisa e veio empinado até o portão.
             — Heitor! Heitor! Como vai você, meu velho? — Saudou Durval.
              Heitor manteve o cenho franzido e olhou Durval como se avaliasse um inseto sobre o qual deveria decidir se matava ou apenas espantava da frente.
             — Ei, eu queria conversar com você sobre uma coisa.
              Durval ainda esperou um segundo logo depois de terminar a frase para se certificar de que o homem não ia mesmo responder-lhe. Continuou:
             — A Dolores esteve com a Melinda… A Melinda, sua esposa. E as duas conversaram… sobre o Botelho…
              Heitor grunhiu uma concordância. Durval teve até vontade de sorrir, uma grasnada daquele homem já era algo para se comemorar.
             — Então, você vê que coisa — continuou Durval. — Eu queria saber se posso ver a fotografia, a que vocês têm do Botelho. Fiquei intrigado com aquilo, sabe? Então pensei se você poderia…
             — Olha aqui, Durval! — Retumbou o homem. — Eu não sou de fofocaiada. Você sabe que eu não sou.
             — Sei, claro! — Durval fez uma expressão severa para atestar que o sujeito era pessoa decente e aprumada.
             — Nós só chamamos a Dolores aqui porque a Melinda se preocupa com ela. Eu nem queria que a Mel se metesse nisso! Mas temos visto coisas que… Você sabe…
             — Eu sei? Não sei se sei, não?
             — Ora, vá! Toda essa conversa de defunto para lá, defunto para cá, e defunto que some, e defunto que aparece. E vocês metidos com esse tipo. Esse cara não é direito, Durval!
              Durval balançou a cabeça concordando.
             — Conheço esse fulano há tempo. Desde que cumpri ordem como milico. Ele não é flor que se cheire, te falo.
             — Então, eu queria ver a foto. Será que posso ver?
              Heitor olhou para Durval de novo daquele jeito que parecia que olhava do alto de um púlpito de dois metros de altura. Nariz eminente, quase como uma divindade que poderia decidir entre céu e inferno para uma pobre alma penada.
              Por fim, abriu o portão e se pôs de volta a casa. Durval foi atrás. Precisava ver a tal fotografia na qual Botelho aparece ao lado de um homem com chifres.



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quinta-feira, outubro 19

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 27


CORNU CUTANEUM

Durval não conseguia dormir. Já estava há quase duas horas rolando na cama e matutando sobre tudo que Dolores havia dito na cozinha. De fato, ele sempre desconfiara um pouco do amigo professor de biologia. Mas nunca chegara a considerar seriamente que Botelho seria o assassino. Afinal, os dois se conheciam há quase cinquenta anos.
             Suzana, a esposa de Botelho, nunca foi de muita conversa. Sempre tricotando ou lendo um livro, quase não participava das conversas quando os dois casais se reuniam. Mesmo assim, os jantares no sítio sempre eram agradáveis. Botelho contava sobre suas conquistas durante o período em que fora pesquisador do exército e Durval falava de seus tempos em Israel como missionário beneditino. A conversa sempre terminava com um nostálgico "bons tempos", dito em meio a algum pigarro.
             De qualquer forma era difícil saber se tudo o que Botelho contava sobre seu tempo com os militares era verdade ou imaginação melancólica de um cientista aposentado que não havia conseguido revolucionar o mundo. Durval nunca deu muita trela às histórias excêntricas do professor. Mas tinha certeza absoluta que ele nunca mencionara um homem com chifres espiralados de bode no meio da testa.
             Durval desistiu de dormir. Levantou-se da cama procurando não fazer barulho para Dolores não acordar, e foi para o andar de baixo.
             Nem lembrava quando havia sido a última vez que ligara aquele computador.
             Digitou "homem com chifres". A internet não era das mais rápidas, mas depois de alguns segundos, uma lista com 475 mil resultados apareceu na tela.
             Havia um álbum de jazz de Miles Davies chamado "O Homem com Chifres". Uma tal de Liang Xiuzhen chinesa que diziam ter desenvolvido um chifre de unicórnio bem no meio da testa. Era um único pedaço de osso que saía da fronte da mulher como uma grande unha virada para baixo. Uma francesa de 69 anos tinha um chifre crescendo em sua testa por quase duas décadas. Um homem com chifre na nuca. Parecia que pessoas com chifres não eram tão incomuns, afinal. Todos casos de doenças relacionadas ao crescimento ósseo, também chamadas pela medicina de Cornu Cutaneum. Um crescimento anormal de queratina a partir do osso que rompe a pele. Geralmente na cabeça. Mas o que Dolores relatara não era em nada parecido com nenhuma daquelas fotos.
             Durval lembrou-se da escultura de Moisés na Basílica de São Pedro em Roma, onde o profeta é retratado por Michelangelo com um belo par de chifres projetando-se para cima por entre os cabelos. A própria Bíblia na tradução de São Jerônimo, afirma que quando Moisés desceu do monte Sinai com as tábuas dos Dez Mandamentos, possuía chifres. Êxodo, capítulo 34, versículo 29.
             Parecia que os chifres vinham acompanhando a humanidade há algum tempo. Durval desligou o computador, pegou sua flauta contralto e foi para a varanda. Com uma surdina feita de papelão tocou Canon em Ré Maior de Pachellbel no silêncio da madrugada enquanto esperou o dia amanhecer. Assim que o sol despontasse ele ia tirar aquela historia a limpo.



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sábado, agosto 12

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 26


O ASSASSINO É SEU AMIGO

— Como assim “ele é o assassino”?
            Foi a pergunta que Durval fez a Dolores assim que entraram em casa.
            Ele a acompanhou até a cozinha onde ela lhe preparava um sanduíche de queijo com tomate.
           — Quer leite também?
           — Sim, meia caneca — ele respondeu.
            No momento em que ela abriu a geladeira, Durval ouviu um miado. Olhou para o chão e lá estava a gata branca.
           — E essa gata? O que faz aqui?
           — Ela estava na porta da frente quando cheguei. Parecia que queria entrar. Não sei de quem é, mas deve ser de alguém. Tem até uma fitinha no pescoço.
            Dolores colocou a caneca com leite no micro-ondas.
            De fato, havia uma fita vermelha no pescoço da gata. Parecia até que tinha alguma coisa escrita com letras brancas na fita. Mas Durval não estava com nenhuma vontade de abaixar-se para ler.
           — Me fale de uma vez, mulher! O que você quis dizer com o Botelho ser o assassino? Não me deixe assim nessa agonia!
           — Fui até a casa do Heitor hoje a tarde.
            Dolores serviu o sanduíche com leite para Durval. 
           — O Heitor marido da Melinda? Então era lá que você estava… O que foi fazer lá?
            Durval deu uma bocada no sanduíche e bebeu um gole de leite.
           — A Melinda veio até aqui e disse que eles queriam falar comigo. Então fui ali na casa deles na esquina.
           — E? — Durval perguntou mastigando uma nova bocada do sanduíche.
           — Eles me mostraram uma fotografia do Botelho quando ele era novo. Num laboratório. Parecia coisa do exercito. Tinha uns homens de farda atrás. Ele estava de jaleco branco ao lado de uma maca. E na maca, havia um…
           — Um o que, mulher?!
           — Parecia ser um… corpo.
           — Como assim “parecia”? Era ou não era um corpo?
           — É que tinha… — Dolores colocou a mão na boca e sentou-se.
            Durval parou de mastigar.
           — Tinha… chifres, Durval.
           — Chifres?
           — Sim. Parecia ser uma pessoa com chifres.
            Durval deu uma risada curta.
           — Uma pessoa com chifres — ele repetiu irônico.
           — Sim. Eram chifres como os de um bode ou carneiro — ela fez um movimento circular no ar com a mão. — Mas devia estar morta, a coisa. Os olhos fechados.
           — Isso não faz o menor sentido, Dodô. Você sabe que não faz — Durval deu outra mordida no sanduíche.
           — Não sei, não. Vá que o Botelho era metido com alguma coisa de experiência genética do governo, sei lá.
            Durval explodiu numa risada que o fez soltar um monte de migalhas de pão pela boca.
           — Experiência genética? E então ele fez um híbrido de homem e bode?
           — Eu não sei! Só sei que não confio mais nele.
           — E por que ele seria o assassino? Se fez experiência genética isso não o incrimina como assassino, não é mesmo?
           — É. Mas o Heitor e a Melinda me contaram uma outra coisa sobre ele.
           — Contaram o que? — Durval parou de comer de novo.
           — Disseram que no dia em que o cadáver sumiu da nossa cozinha, o viram colocando um saco preto grande na carroceria da camionete dele.
           — Lixo.
           — Mas ele estava tirando o saco preto pelos fundos do nosso quintal.


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domingo, julho 23

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 25


MAIS PERTO DO CÉU

Quando Durval cruzou o portão de entrada da casa um calafrio percorreu sua espinha.
           Simplesmente não sabia o que faria se Dolores ainda não tivesse voltado para casa. Ele não podia viver sem a mulher que há quase cinquenta anos era sua companheira inseparável. A única que estivera firme a seu lado por uma vida inteira, nos momentos bons e nos ruins. Durval não conseguia se imaginar sem Dolores. Ela era parte integrante de sua vida.
           Olhou para trás. A camionete de Botelho estava estacionada na rua. O professor dissera que ia esperar Durval verificar se Dolores havia voltado. E se não tivesse voltado? Que fariam? Polícia? Hospital?
           A luz da sala estava acesa, mas isso não significava nada. Joana a empregada sempre a deixava acesa quando saia para o caso de um deles precisar descer as escadas até a cozinha e não tropeçar no escuro.
           Durval atravessou o jardim da frente da casa. Uma pérgola repleta de trepadeiras floridas formava um caminho que ia do portão da rua até a entrada da varanda. Lembrou-se quando Dolores e ele escolheram as plantas que comporiam a passagem. A dúvida era entre o Jasmim-estrela e a Madressilva. Duas flores branquinhas, que ficariam lindas na entrada da casa e combinariam com as bromélias, babosas e roseiras da varanda. A palavra final foi de Dolores: Jasmim-estrelas. O formato e o doce perfume sem igual havia sido decisivo. Segundo Dolores era o que faria você se sentir mais perto do céu. As folhas verdes escuras e brilhantes, contrastavam com o branco das flores. Naquela hora, devia ser mais de meia noite, as flores pareciam acender, iluminando o caminho até a casa. Durval segurou a respiração conforme aproximava-se da varanda da casa. Deu um último passo e parou.
           E então ele ouviu. Sim, ele a ouviu! Era ela!
           A porta da sala se abriu e ele viu Dolores. Um sorriso lindo se abriu no rosto dela e ela veio em sua direção.
           Os olhos de Durval se encheram de lágrimas quando ela o abraçou. Ele riu e chorou ao mesmo tempo. Apertou-a nos braços com os olhos fechados e prometeu para si mesmo que não a perderia de novo. O ar reprimido nos pulmões saiu lentamente e levou para longe a angústia que guardava no peito. Ela estava bem. Ela estava bem.
          — Dodô, meu amor — ele disse e desfez o abraço para olhar em seus olhos.
          — Durval, meu bem — ela sussurrou.
          — Que houve, Dodô? Onde você estava?
          — Descobri uma coisa sobre o… — ela parou de falar e olhou para o portão da rua.
           A camionete de Botelho continuava parada na frente da casa, metida nas sombras. Durval não conseguiu distinguir direito, mas Botelho devia estar olhando para eles. Acenou para o amigo querendo dizer que tudo estava bem e que ele podia ir embora.
           Ouviu o som grave do motor sendo ligado e a camionete saiu.
           Voltou-se para Dolores e ela estava assustada. Olhos arregalados.
          — Que foi, Dodô?
          — Você estava com o Botelho?
          — Sim.
          — Ele é o assassino, Durval!


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segunda-feira, maio 15

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 24


TITÂNIO

— Olha isso... olha isso! — Repetia o legista, enquanto dissecava a perna do defunto.
          Durval e Botelho olhavam fixamente para o trabalho do médico que realizava movimentos rápidos e precisos com o bisturi, o sujeito parecia saber bem o que fazia. Durval mantinha o rosto contraído levemente virado para o outro lado, como se, de repente, alguma coisa, sangue talvez, fosse espirrar nele. Os braços cruzados na frente do corpo pareciam dizer que não estava nada confortável assim tão perto de um cadáver sendo dissecado. Botelho aparentava estar bastante interessado. Uma das mãos no queixo, a outra no bolso do casaco, o corpo alto e magro curvado sobre a mesa para poder ver com clareza.
          Rogério, o legista, cortava a perna do morto desde a altura do quadril até perto do joelho. Aos poucos uma peça de metal foi surgindo do meio da carne branca como cera de vela. A parte de cima tinha uma esfera e encaixava-se perfeitamente no osso do quadril. A de baixo estava tão integrada no final do osso da coxa que parecia coisa de "O Exterminador do Futuro 2", em que o metal se transformava em partes do corpo do andróide.
         — Parece até um ciborgue — Durval ousou comentar.
          Nenhum dos dois respondeu.
         — É platina? — Perguntou Botelho.
         — Titânio! — Disse o legista. — É forte, bem leve e praticamente não apresenta rejeição no organismo — ele passou a ponta dos dedos no encaixe entre o metal e o osso. — Um trabalho de primeira, realmente, de primeira.
         — Quer dizer que a vítima tinha uma prótese de titânio — disse Durval.
         — Praticamente todo o fêmur — completou o legista.
         — Isso é realmente uma excelente pista — disse Durval e olhou para Botelho que continuava com a mão no queixo.
          — Que tipo de acidente iria requerer uma prótese desse tipo? — Perguntou Durval.
          — Para ter havido a destruição quase completa do fêmur, certamente não foi um tropeço no degrau da escada — disse o legista em meio a um sorriso.
          — Pode ter sido uma doença?
          —  Pode. A osteonecrose afeta o fêmur. Poderia ser o caso. Mas se eu tivesse que apostar diria que este é um caso de traumatismo.
          Durval voltou-se para Botelho:
         — Você disse que o ator principal do filme que estão gravando aqui na cidade está desaparecido.
          Botelho assentiu.
          Estava decidida a linha de ação da investigação. Durval tinha que conversar com esse pessoal da filmagem. Olhou o relógio: quinze para a meia noite. E Dolores? Precisava voltar para casa e ver se sua mulher já tinha voltado. Sentiu um calafrio quando imaginou que ela poderia estar desaparecida ainda. Exatamente como o tal ator do filme.
         — Preciso ir — disse para Botelho.
         — Claro. Te levo em casa.
          No caminho até a casa, na camionete de Botelho, Durval não conseguia parar de pensar em Dolores e no que faria se ela ainda não tivesse chegado. Teria de ir à polícia. Seria possível que Botelho tivesse sequestrado Dolores e que ela estivesse presa em algum lugar? Durval não sabia se sentia culpa por desconfiar do amigo ou medo por estar sentado ao lado do possível assassino.
          Exatamente à meia noite eles chegaram na casa.


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quinta-feira, janeiro 5

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 23


ÁGUA RÉGIA

— Como podem ver, o rosto está desfigurado — disse o legista apontando para o cadáver estirado na mesa de aço.
         Durval mantinha a cabeça virada o mais que podia para o outro lado, mas os olhos estavam vidrados no morto.
         — O assassino usou um tipo de ácido para que não pudéssemos fazer a identificação da vítima. Ainda não consegui determinar a substância, mas desconfio que foi uma mistura de ácido nítrico e clorídrico concentrados.
         — Água Régia — disse Botelho.
         — Sim — concordou o legista. — Olhem a coloração alaranjada no osso do maxilar acima das gengivas. — Ele abriu a boca do morto.
         Durval tentou não olhar, mas olhou. Era horrível. A pele estava toda inchada e translúcida.
         — Não dá para identificar pelos dentes? — Perguntou Botelho.
         — Nesse caso, não. A polícia não tem praticamente nenhuma pista de quem seria a vítima, então fica difícil selecionar possíveis radiografias prévias.
         — Mas esperem! Esperem aí! — Gritou Durval.
         — Como sabem que este morto é o mesmo que apareceu na minha cozinha há seis dias? — Durval encheu o peito de ar e, virando-se para Botelho, continuou: — E como você sabia que o morto estava dentro de um caixão de metal naquele rio? E como tirou o caixão de lá?
         — Calma, meu velho. O que aconteceu foi que o Rogério…
         — Quem diabos é Rogério?
         O legista levantou o dedo.
         Durval bufou e arregalou os olhos para Botelho querendo que ele continuasse de uma vez. Botelho recomeçou.
         — Dias depois que você foi até a minha casa e contou que o cadáver havia desaparecido da sua cozinha, o Rogério me disse que um dos caixões aqui do necrotério havia sumido. Nesse meio tempo descobri que uma equipe de filmagem está produzindo um filme aqui em Santa Maria.
         — E o que isso tem a ver com todo o resto?
         — Acontece que o ator principal deles está desaparecido há quase uma semana. O último lugar que filmaram foi naquela ponte que te levei. Foi lá que encontrei o caixão boiando na água e o trouxe para a margem. Sua faca estava dentro do caixão com o cadáver.
         — Minha faca?
         — Sim, a faca com cabo de madeira entalhada. Por isso te levei lá. Pois achei que você era o assassino e queria confrontar você. Mas logo descobri que estava enganado. Aquela faca não era a sua. Descobri isso quando achei sua faca na minha casa. Você a esqueceu comigo durante a pescaria.
         — Eu sei bem disso!
         — O tempo todo o verdadeiro assassino tentou esconder qualquer traço de pista que levasse a investigação até ele.
         — Mas, ele não contava com isto aqui — interrompeu o legista e apontou para a perna do cadáver.
         Durval imaginou que se trataria de uma tatuagem ou algo assim, mas, com exceção de estar inchada e com aquela aparência translúcida de gelatina, a perna do morto não parecia ter nada de anormal.
          Durval olhou para o legista esperando uma explicação. O homem esboçou um leve sorriso e, com o nó dos dedos, deu três batidas na perna do defunto. Um som firme e metálico encheu o ar.


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segunda-feira, dezembro 12

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 22


O NECROTÉRIO

Antes de sair da camionete de Botelho, Durval olhou seu relógio de pulso. Faltavam dez minutos para as dez da noite. Abriu a porta e desceu apoiado na bengala. Botelho já estava caminhando na direção da porta da frente do prédio. Era um edifício antigo e maltratado de três andares. A pintura branca estava escurecida e descascada. Se não fosse a luz acesa numa das janelas do primeiro andar, daria para pensar que o lugar estava abandonado. Ao lado da porta dupla de vidro da entrada havia uma placa onde se lia “Necrotério da Cidade de Santa Tereza”. Durval caminhou lentamente até a porta da frente onde Botelho falava com alguém pelo interfone.
  — Sim, ele está comigo — disse Botelho.
  Com um “clunc” a porta destrancou. Botelho abriu e esperou Durval entrar. O saguão do prédio estava vazio e escuro. Apenas a luz da rua entrava pela porta de vidro e iluminava de um lado um balcão de atendimento e do outro várias cadeiras enfileiradas. Botelho fechou a porta atrás de Durval e foi até o início das escadas que desapareciam nas sombras. O lugar dava calafrios, e havia um cheiro que Durval não conseguiu identificar. Parecia de toucinho ou gordura, era um cheiro de carne crua.
  — Vamos, meu velho — disse Botelho, impaciente.
  — Estou ficando cheio disso! Onde estamos indo, diabos?
  — Calma. Já tudo se explica. O Rogério está nos esperando.
  — Quem é Rogério?
  — O legista.
  E então Durval sentiu-se atingido por um raio ao imaginar o que estariam fazendo ali. Botelho estaria levando-o para ver o corpo de Dolores? Durval sentiu as pernas tremerem. Abriu a boca, mas não conseguiu formar uma frase. Apenas balbuciou.
  — A Dolores? A Dolores?
  — Não, meu velho! Não se trata disso.
  — A Dolores está…
  — Não sei onde ela está, mas não está aqui, posso garantir.
  Aquilo não era exatamente algo que deixasse Durval aliviado. Afinal, sua mulher estava desaparecida há quase cinco horas. Mas sentiu-se um pouco melhor.
  — Vamos de uma vez ver o que você quer me mostrar! — Rosnou.
  Durval subiu as escadas atrás de Botelho.
  Saíram num corredor longo e escuro. A poucos metros, uma porta lateral entreaberta projetava uma luz fluorescente. Enquanto se dirigia até porta, Durval cismou onde estaria se metendo.
  Adentraram a sala principal do necrotério. No fundo havia uma parede com várias portas de geladeira de aço. Uma delas estava aberta e dava para ver os pés de um cadáver lá dentro. No meio da sala quatro mesas também de aço. Três delas estavam com corpos cobertos com lençóis brancos. Só os pés ficavam para fora do lençol. O cadáver da quarta mesa não estava coberto. Pelo contrário. Estava completamente aberto, da base do pescoço até o umbigo. O legista debruçado sobre o defunto, remexia dentro dele. Ao ouvir Botelho e Durval entrando na sala, virou-se para eles e sorriu.
  — Já não era sem tempo!
  Caminhou até eles tirando uma das luvas cheia de sangue e cumprimentou Botelho com uma aperto de mão firme.
  — Este é o Durval que te falei — disse Botelho.
  O legista olhou para Durval e estendeu a mão.
  Durval apertou a mão dele imaginando que há poucos segundos ela devia estar segurando o fígado de um morto. Quase sentiu náusea, mas sorriu e disse:
  — Muito prazer.


CONTINUA...

Um Cadáver na Cozinha é um folhetim escrito por José Gaspar e publicado na coluna "Histórias de Mistério" do jornal The Brazilians em Nova York.

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sexta-feira, agosto 5

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 21


NÃO CONFIE EM NINGUÉM
Durval não teve tempo de responder ao professor de Biologia. Logo depois de dizer que estava vindo até a casa de Durval, Botelho desligou o telefone.
  Durval ficou ainda alguns segundos com o fone na orelha ouvindo o silêncio, catatônico. Lentamente pousou o fone no gancho e voltou para o sofá. Os pensamentos simplesmente não se formavam em sua mente. Parecia que o cérebro havia abandonado a caixa craniana. Olhou em volta do sofá. Onde estava a bengala?
  — Joana?
  — Pois não, seu Durval? — Gritou a empregada da cozinha.
  — Você viu minha bengala?
  — Não vi, seu Durval. Não está apoiada na mesinha aí da sala?
  Se o raio da bengala estive na mesinha na sua frente ele teria visto. Ora essa!
  Olhou para o relógio de parede: nove horas da noite. Dolores havia sumido há mais de quatro horas. Onde estaria a pobre mulher? E Botelho estava a caminho. Durval não confiava mais no amigo professor de Biologia. Poderia ser ele mesmo o assassino. E se fosse, poderia estar vindo até sua casa para acabar com sua vida, como já havia tentado fazer quando empurrou Durval do barranco dentro do carro. E se Botelho fosse o assassino, teria sido ele também quem sequestrara Dolores. Mas por que teria levado Dolores e só agora voltado para pegar Durval?
  — Que fazer? — sussurrou Durval com seus botões. — Que fazer?
  Ligar para a polícia não adiantaria nada, já que o delegado Moreira estava morto. Nem a própria polícia estava sabendo lidar com aquele caso.
  Durval estremeceu no sofá quando a campainha tocou.
  Joana passou pelo corredor gingando seus 130 quilos e foi abrir a porta da frente.
  Botelho entrou quase atropelando a mulher e foi direto até Durval no sofá. Com o susto, Durval levantou os dois braços para proteger-se.
  — Durval, meu velho. Você precisa vir comigo agora!
  — Do que diabos está falando?! — gritou Durval.
  — Estou falando do assassino, amigo! Do assassino!
  Durval sentiu novamente o coração palpitar. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele suspirou fundo.
  — Acho que eles sequestraram a Dolores — disse Durval quase chorando.
  — Então já são quatro — disse Botelho.
  — Quatro?
  — O cadáver encontrado na sua cozinha, o delegado Moreira, meu caseiro, e agora Dolores.
  — O Josenildo sumiu?
  — Não aparece há três dias. Falei com a mulher dele e ela disse que não voltou para casa desde terça-feira.
  — Precisamos avisar a polícia sobre esses desaparecimentos.
  — Você enlouqueceu? Podem ter sido justamente eles que sequestraram Dolores e o Josenildo!
  — A polícia?
  — Não confie em ninguém, meu velho.
  — Devo confiar em você, imagino.
  — Você não precisa confiar em mim. Quero que veja com seus próprios olhos.
  — Quer que eu veja o que? Dá última vez que dei ouvidos a você acabei preso. Aliás como você sabia que o cadáver estava na floresta? E o que ele estava fazendo dentro de um caixão de metal?
  — Venha comigo e vou responder todas as suas perguntas. Não podemos ficar aqui.
  — Aonde vamos?
  — Ao necrotério da cidade.



CONTINUA...


Um Cadáver na Cozinha é um folhetim escrito por José Gaspar e publicado na coluna "Histórias de Mistério" do jornal The Brazilians em Nova York.

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