segunda-feira, fevereiro 4

UM CADÁVER NA COZINHA - CAPÍTULO 31


POMPA, CIRCUNSTÂNCIA E MISTÉRIO

Durval bebericou o suco de melancia que Melinda havia lhe servido. A mulher de Heitor devia ter no máximo 25 anos, tinha cabelos negros e longos até o meio das costas, um rosto forte com queixo proeminente e grandes olhos verdes. Havia se sentado no sofá bem na sua frente e o encarava com um sorriso no rosto. Usava um vestido curtíssimo florido que deixava à mostra seus longos braços e pernas. As coxas chegavam a parecer lustrosas de tão iluminadas pela luz do sol da manhã que entrava pela janela da sala.
                  Durval pigarreou e olhou para Heitor que se aproximava com uma caixa de madeira nas mãos. Era retangular e devia medir cerca de trinta centímetros de comprimento por dez de largura. Na parte superior havia uma espécie de brasão entalhado, mas Durval não conseguiu ler o que estava escrito. Ele sentou-se ao lado de Durval e solenemente destrancou o fecho e abriu a caixa.
                 O interior era forrado com veludo preto e no centro havia uma medalha dourada. Inscrito na medalha um sabre sobreposto ao globo terrestre, envolvidos por uma coroa de louros. A fita era larga e roxa com duas listras verde e amarela e possuía um passador dourado com três círculos na horizontal. Heitor virou a medalha e Durval pôde ler a inscrição na parte de trás, “Marechal Hermes”, circundando o emblema do Exército no centro do mapa do Brasil. Ao lado da medalha havia outra menorzinha.
                — Uma das mais altas condecorações do Exército — disse Heitor. — Fui o primeiro de minha turma na Escola de Comando e Estado-Maior. Depois prestei serviços por dezenove anos na Academia Militar de Infantaria do Terceiro Regimento de Engenharia de Combate. Cheguei a capitão.
                 Heitor fez uma pausa e Durval percebeu que o homem queria um elogio.
                — Nossa, hein!
                — Sempre me destaquei na infantaria — disse com pompa.
                — E essa outra medalha menorzinha?
                — Miniatura da maior.
                — E sobre o Botelho e o homem com chifres?
                — Foi nessa época que conheci o seu amigo Botelho. Não gostei dele logo de cara. Muito espalhafatoso, de fala alta e esganiçada. Além de gesticular demais. À primeira vista me pareceu um fanfarrão. Ninguém no regimento gostou dele. Mas o general Moura Fernandes não desgrudava dele. Andavam pelo batalhão para lá e para cá como unha e carne.  Os recrutas chegavam a comentar maldosamente a relação dos dois.
                 Durval pigarreou e olhou para Melinda que ainda mantinha aquele sorriso bobo no rosto.
                — Até aquele momento ninguém sabia qual era o motivo de um civil ter acesso a áreas de segurança máxima do Exército. Como o prédio dos laboratórios de defesa química e biológica. Nem os altos oficiais tinham permissão para entrar naquele prédio. Eu já era segundo tenente nessa época e mesmo assim não podia nem chegar perto daquele lugar.
                 Durval bebeu o resto do suco de melancia.
                — Quer mais um pouco? — Perguntou Melinda.
                — Aceito, sim, obrigado.
                 A mulher levantou-se e foi desfilando até a cozinha.
                — Foi então que eu e um sargento decidimos investigar o que estava acontecendo naqueles laboratórios.



CONTINUA...


Um Cadáver na Cozinha é um folhetim escrito por José Gaspar e publicado na coluna "Histórias de Mistério" do jornal The Brazilians em Nova York.

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